Clave de Sons #48: O caso Wasserman e a morte do alternativo
Sejam bem-vindos, mais uma vez, ao inferno. Hoje, este comboio efetua paragens no seguinte sítio: Wasserman. Temos de falar deste assunto. Ponham o cinto.
Rápida introdução sobre a Wasserman. É uma das maiores agências de gestão de talento, marketing e booking da indústria de entretenimento. Fundada em 1998 por Casey Wasserman, neto do magnata Lew Wasserman, a Wasserman passou as suas quase três décadas de existência a transformar-se. Começou como uma agência mais ligada ao desporto de alta competição, mas através de “sucessivas aquisições”, como referiu Shawn Reynaldo na sua newsletter First Floor, transformou-se num conglomerado com grande influência em múltiplas áreas. Do ciclismo à música, a Wasserman está bem presente a trabalhar nas sombras dos bastidores. Por outras palavras: faz coisas acontecer.
Bem, se tem bastante influência e é estadunidense, não é lá grande surpresa que o senhor Casey Wasserman apareça mencionado nos documentos revelados ao público relacionados com Jeffrey Epstein. Ao que parece, entre 2002 e 2003, o sr. Wasserman relacionou-se com o sr. Epstein e trocou múltiplos e-mails (…sedutores, digamos) com Ghislaine Maxwell, parceira (e cúmplice) dos múltiplos crimes hediondos cometidos pelo sr. Epstein. O que é surpresa, porém, e importante para este cantinho da Internet, é quem veio falar sobre este assunto a público. Parou tudo. Porque é que alguns dos artistas independentes mais badalados da última década estão a falar que vão sair da Wasserman? Uh-oh. Temos um problema. E não (só) pelas razões que vocês pensam.
Num comunicado enviado à imprensa no primeiro de fevereiro, Casey Wasserman disse que se “arrependia da correspondência” com Ghislaine Maxwell e que não teve nenhuma “relação pessoal ou de negócio” com Jeffrey Epstein. Não quero saber disso. Não é sobre o Caso Epstein que quero falar. Quero falar do seguinte. O quão independente e alternativo és se fazes parte da Wasserman, uma agência cuja rede de contactos e poder parece infinita? E o quão verdadeiro é algum do hype que foi sendo criado em torno de alguns destes artistas?
Afinal, falamos de uma agência em que, pelo menos no caso da música, de acordo com a Variety, tem os seguintes nomes debaixo da sua alçada. Ed Sheeran, Coldplay, Kendrick Lamar, SZA, Joni Mitchell, Tyler, The Creator, Raye, Childish Gambino. Como podemos observar, estes são nomes grandes, gigantes, com dois metros de altura no panteão da música popular contemporânea. Depois, no campo do alternativo, encontramos os seguintes nomes. My Chemical Romance, Bring Me The Horizon, Cameron Winter, Geese, Wednesday, MJ Lenderman, Water From Your Eyes, PUP, Orville Peck, Turnstile, Weyes Blood, Beach Bunny, Best Coast, Sleigh Bells, Chappell Roan. E há muitos mais nomes, divididos por múltiplos géneros, que são representados pela Wasserman. Por exemplo, no campo da eletrónica, indica Shawn Reynaldo na sua First Floor, há muitos artistas que são agenciados pela Wasserman e que fazem parte do clube de favoritos do circuito do underground e de tastemakers (como críticos e bookers). Como disse: temos um problema. O mesmo se passa no universo do indie. É provável que o vosso artista favorito seja agenciado pela Wasserman.
Se ao início a imprensa musical pareceu estar em silêncio sobre o assunto Wasserman, rápido teve de o abandonar. A pouco e pouco, começaram a sair comunicados de artistas a indicar que iriam abandonar a Wasserman. (Parece que é mais fácil para os artistas sair da Wasserman do que os agentes que os representam). Chappell Roan, Weyes Blood, Water From Your Eyes e os Wednesday foram alguns dos nomes que comentaram o assunto nas suas redes sociais. Não dava, então, para ignorar mais o tópico.
Tal como a Variety relembra, este nem sequer é o primeiro rodeo de escândalos sexuais em que se vê envolvido Casey Wasserman. Em 2024, o fundador da agência e atual presidente do comité organizador dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 foi acusado de, ao longo de vários anos, ter sido infiel à sua ex-mulher e ter tido múltiplos encontros sexuais com múltiplas recém-contratadas na agência. Na altura, chegou a ser noticiado que foi por em resposta a esse escandâlo que a Billie Eillish abandonou a agência em 2024. Parece que não foi essa a razão que levou a autora de HIT ME HARD AND SOFT (2024) a sair da Wasserman, mas a Billie Eilish só foi parar à Wasserman, como muitos outros artistas, quando esta adquiriu a ala norte-americana de representação de talento da música ao vivo da Paradigm Talent Agency. Consolidação e criação de um monopólio? Nada para ver aqui, senhor agente. Nadinha mesmo.
Voltando à tese apresentada. O quão independente e alternativo realmente és se fazes parte da Wasserman, uma agência cuja rede de contactos e poder parece infinita? E o quão orgânico é algum do hype que foi sendo criado em torno de alguns destes artistas?
Tenho noção de que a segunda parte desta tese soa quase conspiracionista e que a primeira está a acusar muitos de artistas de se venderem (selling out). Quantas playlists editoriais vale a Wasserman? Quantos concertos em grandes festivais? Quantos Best New Music na Pitchfork? Quantos Grammys? Seremos nós, os melómanos, apenas consumidores passivos do que as pessoas com poder para mexer nos cordelinhos nos incutem? Se a realidade é algo passível de implementar, o quão longe estão estas perguntas da verdade?
Na realidade, não sei se quero saber a resposta. Todavia, a quantidade de artistas ligados à Wasserman que sabemos (agora) existir e sabendo do poder e dinheiro que a agência tem à sua disposição, não é totalmente impossível que haja aqui uma espécie de simulacro criado em que caímos todos que nem uns patinhos. O quão orgânica foi a explosão de popularidade da Chappell Roan? Os Turnstile, afinal, serão mesmo uns vendidos? Os momentos virais de Cameron Winter e dos Geese traziam água no bico?
Contudo, tenho a consciência que levantar estas arrelias é injusto para alguns dos artistas envolvidos neste imbróglio. Isto não é sobre se um artista é ou não um vendido. Como escreveu Laura Snapes no jornal The Guardian em 2021, “reclamar sobre a integridade” de um artista é “coisa do passado” quando a integridade “não paga as contas”. Além disso, alguns dos artistas que fazem parte da Wasserman são responsáveis por alguns dos melhores e mais importantes álbuns dos últimos anos. Titanic Rising (2019), por exemplo. É uma obra de arte inegável e um dos meus discos favoritos de sempre (obrigada Weyes Blood). Os Wednesday fizeram alguns dos melhores discos de rock dos últimos anos, o MJ Lenderman é um dos melhores guitarrista e cantautores da atualidade, e o caminho que os Turnstile traçaram continua a ser enraizado na cena de hardcore de Baltimore. Nenhuma destas histórias é anulada por causa da Wasserman, mas… será que há algo mais presente no pensamento inconsciente disto tudo?
A resposta a este dilema confere-nos uma hipótese para refletirmos sobre a primeira parte da tese apresentada. Sabemos que, a partir de meados dos anos 80 e, em definitivo, a partir de Nevermind (1991) dos Nirvana, a cultura alternativa e todo o circuito alternativo transformou-se numa comodidade para o capital também explorar e se apropriar. Porque se há coisa que o capital sabe muito bem fazer, é incorporar a linguagem da contracultura como parte do seu discurso dominante. Suga tudo. Portanto, tornou-se impossível viver da música sem ter de entrar em negociatas com empresas como a Live Nation (e se acham que este é um problema estritamente americano, enganam-se) e interagir com o grande capital. Foi o momento para as grandes multinacionais se infiltrarem e destruirem o circuito alternativo que permitia a certas bandas sobreviverem no seu próprio ecossistema. Se antes existiam dois circuitos diferentes, a partir de meados da década de 90 isso deixou de se se verificar. Como se isso não bastasse, nos últimos anos, com a ajuda das plataformas de streaming e das redes sociais, o alternativo transformou-se, primeiro, numa estética e, depois, numa vibe. Para trás, ficou a cultura da entreajuda, do DIY (do it yourself), e a ideia de um futuro diferente. Para se ser indie hoje, é preciso apenas assinalar os vistos necessários para, mais do que ser, parecer indie.
Isto não é para dizer que alguns dos artistas que agora sabemos terem ligações à Wasserman não tenham presente o ethos da cultura alternativa e da música independente no seu DNA. Muitos destes artistas começaram o seu percurso no seio de comunidades que tinham a entreajuda e a estranheza como pontos fulcrais da sua ética de trabalho. Não estamos para aqui a falar de nepo babies. Falamos de bandas e artistas que, muitas vezes, possuem éticas de trabalho intensas e apropriadas de serem exploradas por uma agência como a Wasserman, que lhes promete mundos e fundos e consegue entregar isso. Concertos para xuxu, digressões bem delineadas, um hype bem conseguido na imprensa especializada. Se uma banda sabe que hoje tem de tocar ao vivo de forma constante para não ser esquecida e conseguir pagar as contas, que melhor agência para estar do que uma que garante isso mesmo?
Nesse sentido, os artistas acabam por ser também eles vítimas do próprio jogo da indústria que o capital oferece em troca pela exposição que talvez lhes possa conferir. Se quiseres ser mais escutado, tens de te profissionalizar. Tens de ter uma imagem para vender e uma estratégia de comunicação à medida da imagem. Uma agência pode ajudar. Uma editora também, mesmo que as próprias editoras independentes queiram agir como multinacionais e ficar com os direitos da tua música. Vais ter concertos, aparecer em playlists e, eventualmente, um burnout. Nunca podes parar. És músico e influencer ao mesmo tempo. Só mais uma presença num festival de showcase! Juro! É desta que vais ser notado pelos olheiros de talentos que te vão tudo o que procuras. Depois, o líder da agência que te contratou aparece nos documentos relacionados com um pedófilo e traficante sexual. Escolhe o teu veneno, camarada. Ao que parece, estas são as únicas opções que restam para qualquer artista que seja possível de classificar como “alternativo” se quiser fazer da vida a sua música. É possível que, em 2026, surja uma banda como os Deerhoof, por exemplo? Que, mais de três décadas de atividade depois, continua a ter, acima de tudo, o seu anti-capitalismo (em toda a linha) e ética DIY como motor? Não é impossível, mas é mais complicado do que nunca.
É preciso relembrar, já agora, que diabolizar os artistas envolvidos (pelo menos, aqueles que falaram…) não é grande solução. Estes foram empurrados para a Wasserman porque, acima de tudo, tornou-se quase impossível imaginar qualquer outro caminho (e, por consequência, futuro) diferente. A submissão ao sistema e ao grande capital parece ser o único destino que resta. O único trajeto. Como expôs Alexis Krauss (dos Sleigh Bells) nas suas redes sociais:
“Se gostava de poder queimar, boicotar e desinvestir de tudo? Claro que sim. Mas, para ser honesta, não me posso dar a esse luxo. A minha banda não se pode dar a esse luxo. A nossa possibilidade de conseguirmos ganhar a vida nesta indústria depende das nossas relações com estas empresas [neste caso, refere-se não só à Wasserman, como também ao Spotify e à Live Nation]. Talvez isto não se aplique a todos os artistas, mas para uma banda que está num patamar intermédio como a nossa, é difícil encontrar uma alternativa”.
Portanto: está morta e enterrada a cultura alternativa como a conhecemos? Se a cultura alternativa deve ser anticapitalista por natureza, mas encontra-se totalmente entranhada no capital, ainda é possível a sua existência enquanto cultura subversiva?
Claro que, como com cada morte, existe sempre a possibilidade de renascimento consequente. Dá para aprender lições. O caso da Wasserman mostra o quanto a cultura alternativa se tornou mais um fragmento da sociedade do espetáculo e do simulacro que alimenta o maior monstro de todos: o capital. Se a secção de talento musical da Wasserman é uma “casa a arder”, como relata a Variety, a exposição de todo este lodo do ecossistema predatório da indústria da música tem de servir de aviso. É necessário e imperativo encontrar soluções, enquanto coletivo e comunidade, para que deixe de ser impossível conseguir imaginar uma alternativa a tudo isto. Hora de abandonarmos o inferno, amigos.


Olá!
Fico sempre com questões quando começa o discurso de que artistas são vitimas das industrias que as obrigam a aderir a elas!
Eu não creio que isso seja verdade. Acho mesmo que tods os envolvids são responsáveis!
Se, enquanto artista, acreditas nos valores que descreveste como "alternativos" deves agir de acordo com eles, simples assim, se deixas de o fazer é porque deixas de acreditar.
Há que desmistificar a ideia de que o *capitalismo* é uma condição inevitável, à qual não nos podemos opor. Ele é construído diáriamente por tods aqueles que escolhem alinhar com essas propostas, desde os mais ricos aos mais pobres.
Não me interpretes mal, eu ñ estou a dizer que qualquer produtora ou qualquer lógica industrial na música é maléfica ou degrada os "valores alternativos", não acho isso. Mas gosto de pensar na possibilidade de refletir cada decisão que tomas de acordo com os teus valores: Não vais trabalhar com alguém que pretende destruir a casa dos teus vizinhos para te dar uma casa maior, certo. Mts não pensam assim, mas eu não creio que seja uma inevitabilidade, para mim é sempre uma decisão, e portanto - apesar de não utilizar a palavra diabolizar - responsabilizo todo o indivíduo que escolhe ser submisso do sistema e do grande capital.
(atenção!! ta tudo bem em aderir, este comentário é mais para lembrar que nao é uma inevitabilidade mas sim uma escolha, normalmente baseada em todos os benefícios económicos que traz, XD - ñ sei se concordas comigo)